Reforma Social

Allan Kardec


(...) O homem chegou a uma fase em que as ciências, as artes e as indústrias atingiram um alcance até hoje desconhecido. Se a satisfação que delas tira satisfaz a vida material, deixa um vazio na alma: ele aspira qualquer coisa de superior, sonha com melhores instituições, deseja a vida, a felicidade, a igualdade, a justiça para todos.

Mas, como atingir tudo isso com os vícios da sociedade e, sobretudo, com o egoísmo imperando? O homem sente, pois, a necessidade do bem para ser feliz; compreende que só o reino do bem pode lhe dar a felicidade pela qual aspira. Esse reinado ele o pressente pois, instintivamente, crê na justiça de Deus e uma voz secreta lhe diz que uma nova era vai se iniciar.

Como ocorrerá isso?

Ora, se o reino do bem é incompatível com o egoísmo, é preciso que o egoísmo seja destruído. Mas, o que pode destruí-lo? A predominância do sentimento do amor, que leva os homens a se tratarem como irmãos e não como inimigos. A caridade é a base, a pedra angular de todo edifício social. Sem ela o homem construirá sobre a areia. Assim sendo, urge que os esforços e, sobretudo os exemplos de todos os homens de bem, a difundam; e que eles não se desencorajem ao defrontarem as recrudescências das más paixões. Elas são os inimigos do bem. Ganhando terreno, lançam-se contra ele; mas está nos desígnios de Deus que, por seus próprios excessos, elas se destruam. O paroxismo de um mal é sempre o sinal de que chega ao seu fim.

Acabo de afirmar que, sem a caridade, o homem constrói sobre a areia. Um exemplo torna isso compreensível.

Alguns homens bem intencionados, tocados pelos sofrimentos de uma parte de seus semelhantes, supuseram encontrar o remédio para o mal em certas doutrinas de reforma social. Com pequenas diferenças, os princípios são pouco mais ou menos os mesmos em todas essas concepções, qualquer seja o nome que se lhes dê. Vida comunitária, por ser a menos onerosa; comunidade de bens para que todos tenham a sua parte; nada de riquezas, mas, também, nada de miséria.