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Tratar a alguém de irmão é tratá-lo de igual para
igual; é querer quem assim o trate, para ele, o que para si próprio quereria.
Num povo de irmãos, a igualdade será a conseqüência de seus sentimentos, da
maneira de procederem, e se estabelecerá pela força mesma das coisas.
Qual, porém, o inimigo da igualdade? O orgulho, que
faz queira o homem ter em toda parte a primazia e o domínio, que vive de
privilégios e exceções, poderá suportar a igualdade social, mas não a fundará
nunca e na primeira ocasião a desmantelará. Ora, sendo também o orgulho uma das
chagas da sociedade, enquanto não for banido, oporá obstáculo à verdadeira
igualdade.
A liberdade, dissemo-lo, é filha da fraternidade e
da igualdade. Falamos da liberdade legal e não da liberdade natural, que, de
direito, é imprescritível para toda criatura humana, desde o selvagem até o
civilizado.
Os homens que vivam como irmãos, com direitos
iguais, animados do sentimento de benevolência recíproca, praticarão entre si a
justiça, não procurarão causar danos uns aos outros e nada, por conseguinte,
terão que temer uns dos outros. A liberdade nenhum perigo oferecerá, porque
ninguém pensará em abusar dela em prejuízo de seus semelhantes.
Mas, como poderiam o egoísmo, que tudo quer para
si, e o orgulho, que incessantemente quer dominar, dar a mão à liberdade que os
destronaria? O egoísmo e o orgulho são, pois, os inimigos da liberdade, como o
são da igualdade e da fraternidade.
A liberdade pressupõe confiança mútua. Ora, não
pode haver confiança entre pessoas dominadas pelo sentimento exclusivista da
personalidade. Não podendo cada uma satisfazer-se a si própria senão à custa de
outrem, todas estarão constantemente em guarda umas contra as outras.
Sempre receosas de perderem o a que chamam seus
direitos, a dominação constitui a condição mesma da existência de todas, pelo
que armarão continuamente ciladas à liberdade e a coarctarão quanto puderem.
Aqueles três princípios são, pois, conforme acima
dissemos, solidários entre si e se prestam mútuo apoio; sem a reunião deles o
edifício social não estaria completo. O da fraternidade não pode ser praticado
em toda a pureza, com exclusão dos dois outros, porquanto, sem a igualdade e a
liberdade, não há verdadeira fraternidade. |
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