Marcel Benedeti
Quando
algumas pessoas se deparam com um bife em seu prato, em geral não se dão conta
de qual é a origem daquele alimento e nem se o animal que perdeu a vida em
função de tal capricho gastronômico tinha consciência ou não de todo o
sofrimento a que foi exposto.
Um amigo
nos contou que, durante o período de adolescência, trabalhou em uma fazenda
como tratador de bovinos de uma raça produtora de leite. Sua função era cuidar
bem deles, alimentando e evitando que os parasitas os infestassem. Sua
dedicação era obviamente percebida pelos animais.
Entretanto as vacas que declinavam sua produção leiteira, em função da idade,
eram enviadas ao abate para que o lucro fosse constante, aproveitando até
mesmo o último suspiro do pobre animal.
O rapaz
era filho de um dos colonos da fazenda e não tinha escolha. Ele deveria
cumprir suas funções de trabalhador da fazenda, sem se questionar sobre o que
seria correto ou não e repetidas vezes ele era também o responsável por enviar
os animais velhos e de baixa produção ao abate. Mesmo contrariado, o rapaz
cumpria as ordens do patrão.
Certo
dia, o rapaz se dirigia ao abrigo onde o leite era retirado sem perceber que
era observado por olhos que lhe dirigiam certo ódio e rancor. Era um velho
touro que sabia, de algum modo, que o rapaz seria o seu algoz, como já fora de
outros animais.
O velho
touro parecia saber das funções do garoto e, tomado de um ódio incontrolado,
investiu contra o rapaz, que de repente estava encurralado entre cercas de
arame farpado e mourões altos, tendo diante de si um animal bravio.
Não havia
alternativa exceto tentar fugir das possíveis chifradas do animal vingativo;
entretanto o rapaz foi alcançado e, com um rápido mover de cabeça, o touro o
arremessou a vários metros. O menino se estatelou no chão e, por instantes,
perdeu os sentidos. Ao voltar a si, se surpreendeu. Ele estava rodeado por
diversas vacas que o protegiam do touro, formando um círculo vivo.