Uma História Real

Marcel Benedeti

 

Esta história foi contada por um amigo que, durante o seu período de infância, viveu em uma fazenda de criação de gado. A fazenda se destinava a criar bovinos para produção de carne, e a função do nosso amigo era ajudar seu pai na organização dos animais – cuidando deles como se fossem seus.

O rapaz não permitia que os animais ficassem sem água ou comida. O tratamento médico era feito por ele mesmo, já que naquela época eram raros os médicos veterinários no Brasil. Os animais que viviam sob sua tutela o tinham como um irmão cuidadoso e presente. A amizade entre eles não demorou a se formar de modo sólido. Ao seu chamado, todos os animais respondiam rapidamente e ficavam ao seu redor, como uma família reunida.

A confiança que os bois, vacas e bezerros depositavam em nosso amigo era cega. Os animais não duvidavam sequer por um único segundo de sua lealdade e amizade. Por isso, qualquer que fosse o seu desejo, os animais, que tinham nomes, o atendiam. Se ele pedisse que fossem todos fossem para o alojamento de animais, era prontamente obedecido, porque acreditavam que o “irmão” e orientador sabia o que era melhor para eles.

Ao menor contato com o rapaz não faltavam lambidas carinhosas e mugidos suaves de carinho. Era como se conversassem com ele e dissessem palavras de verdadeira amizade. Mas, um dia, o rapaz recebeu uma ordem: era necessário reunir os animais para embarque.

Todos deveriam fazer uma longa caminhada até a cidade mais próxima, de onde partiria o trem que os levaria ao abatedouro. A ordem caiu como uma pedra sobre a cabeça do jovem, que experimentava pela primeira vez a triste incumbência de guiá-los ao embarque no trem da morte.

O rapaz reuniu os animais, que alegremente o seguiram pelas pastagens até a cidade próxima. Ao chegarem, foram rapidamente colocados nos vagões. De dentro do trem, os animais olhavam através das frestas de madeira à procura de seu amigo, pois esperavam que ele estivesse por perto.