O Urso

Luís Filipe

 

Certa vez, um urso faminto perambulava pela floresta em busca de alimento. A época era de escassez, porém seu faro aguçado sentiu o cheiro de comida e o conduziu a um acampamento.

Ao chegar lá, o urso, percebendo que o acampamento estava vazio, dirigiu-se para uma grande fogueira, e dela tirou uma enorme tina de comida. O urso a abraçou com toda a sua força e enfiou a cabeça dentro dela, devorando tudo.

Enquanto abraçava a tina, começou a perceber algo lhe atingindo. Na verdade, era o calor da tina que o queimava nas patas, no peito e por onde mais a tina encostava.

O urso nunca havia experimentado aquela sensação; interpretou que as queimaduras eram como uma coisa querendo lhe tirar a comida. Então, começou a urrar muito alto, e, quanto mais alto rugia, mais apertava a tina quente contra seu imenso corpo. Quanto mais a tina quente lhe queimava, mais ele apertava e mais alto ainda rugia.

Quando os caçadores chegaram ao acampamento, encontraram o urso morto recostado a uma arvore, segurando a tina. Ele ainda mantinha a expressão de estar rugindo.

Quando terminei de ouvir essa história percebi que, em nossa vida, por muitas vezes, abraçamos certas coisas que julgamos ser importantes, algumas delas nos trazem dor; nos queimam por fora e por dentro, e mesmo assim, ainda, as julgamos importantes.

Temos medo de abandoná-las e esse medo nos coloca numa situação de sofrimento!... Apertamos essas coisas contra nossos corações e terminamos derrotados por algo que tanto protegemos, acreditamos e defendemos.

Na vida, às vezes, é necessário reconhecer que nem sempre o que parece salvação vai lhe dar condições de prosseguir. Precisamos ter a coragem e a visão que o urso não teve.

Tiremos de nosso caminho tudo aquilo que faz nosso coração arder. Soltemos a tina... Quando soltá-la, perceberemos que podemos libertamo-nos e que, com certeza tudo vai dar certo.