Retrato de Uma Fotografia

Adeilson Silva Salles


Remexendo naquelas caixas de documentos que costumava guardar, sobre o guarda roupas, senti-me saudoso ao me deparar com um álbum de fotografias.

Lembranças afloraram; naquelas fotos ficaram gravadas, instantes pretéritos. A Ávida é extremamente dinâmica. Tudo muda, nós somos mutantes.

Peguei aquele registro de imagem e contemplei o rosto de meu filho ali estampado.

Dei-me conta, de que certamente naquele momento ele estava em algum lugar, descobrindo a vida e descobrindo-se.

O tempo passou, e cá estou, experimentando a orfandade dos próprios filhos. Nossa condição evolutiva turva as nossas vistas, e não nos deixa enxergar que “nossos filhos não são nossos filhos” assevera o profeta Kalil Gibran.

Já não compro mais hambúrgueres, ele já está na fila da vida aprendendo qual é o hambúrguer mais importante...

Hoje aprendo com ele.

Observo aquela maneira peculiar de agir, e me rendo à verdade de que ele tem uma bagagem espiritual que não posso mensurar, pois não foi eu quem lhe deu.

Antes de ser meu filho, ele é filho de Deus.

A foto em minhas mãos... e meu filho na moldura do mundo.

A imagem congelada entre meus dedos, e ele, movimentando a própria vida.

As cores da todo amarelando-se, e ele, cada vez brilhando mais, refletindo as cores do amor de Deus.

Não posso continuar chamando-o de meu, ele não me pertence.

Ele é da vida, ele é a vida... Apenas filho!

Ele é a maior demonstração de confiança que Deus depositou em mim.