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Sobre o
Carnaval
Francisco Cândido Xavier
Nenhum
espírito equilibrado, em face do bom senso, que deve presidir a existência das
criaturas, pode fazer a apologia da loucura generalizada que adormece as
consciências nas festas carnavalescas.
É
lamentável que na época atual, quando os conhecimentos novos felicitam a
mentalidade humana, fornecendo-lhe a chave maravilhosa dos seus elevados
destinos, descerrando-lhe as belezas e os objetivos sagrados da Vida, se
verifiquem excessos dessa natureza entre as sociedades que se pavoneiam com os
títulos da civilização.
Enquanto os
trabalhos e as obras abençoadas, geralmente incompreendidos pelos homens, lhes
burilam o caráter e os sentimentos, prodigalizando-lhes os benefícios
inapreciáveis do progresso espiritual, a licenciosidade desses dias prejudiciais
opera, nas almas indecisas e necessitadas do amparo moral dos outros espíritos
mais esclarecidos, a revivescência de animalidades que só os longos aprendizados
fazem desaparecer.
Há, nesses
momentos de indisciplina sentimental, o largo acesso das forças das trevas nos
corações, e, às vezes toda a existência não basta para realizar os reparos
precisos, de uma hora de insânia e de esquecimento do dever.
É estranho
que as administrações e elementos de governos colaborem para que se intensifique
a longa série de lastimáveis desvios de espíritos fracos, cujo caráter ainda
aguarda o toque miraculoso da dor para aprender as grandes verdades da vida.
Enquanto há
miseráveis que estendem as mãos súplices, cheios de necessidades e de fome,
sobram fartas contribuições para que os salões se enfeitem e se intensifique o
olvido de obrigações sagradas, por parte das almas cuja evolução depende do
cumprimento austero dos deveres sociais e divinos.
Ação
altamente meritória seria a de empregar todas as verbas consumidas em
semelhantes festejos na assistência social aos necessitados de um pão e de um
carinho. |