- Ninguém reconhece meus esforços, os filhos julgam que o dinheiro cai do céu para usarem e abusarem, a esposa não compreende as longas ausências do lar, as filiais exigindo viagens repetidas, as flutuações de mercado, as pressões do fisco, os juros altos dos financiamentos...

Olhou ao alto, através do pára-brisa, e viu um avião a jato singrando os céus, deixando um rastilho de fumaça e ponderou:

- Vida boa é como a do piloto desse avião que ali vai; voando lá no silêncio das alturas, distante das agruras terrenas, desfrutando o status de uma profissão respeitável, sem ter que se preocupar com os problemas da empresa a que serve, atendido gentilmente em cada aeroporto...

Exatamente nessa hora, o piloto do jato, em sua cabina, divagava cismarento:

- Não agüento mais esta vida! Voando sempre de um lado para outro, em meio a esta parafernália de instrumentos, sujeito a horários e normas rígidas, tendo que confiar em mecânicos nem sempre atentos, sem liberdade para dispor do tempo desejável em cada cidade!

Dirigiu o olhar para baixo, meditativo, e viu um homenzinho lá embaixo arroteando um terreno para plantar batatas e afirmou convicto:

- Vida boa é a daquele lavrador lá embaixo, exercendo o mister mais original e legítimo do homem: lavrar a terra e colher dela o alimento de que se nutre, sem complicar a vida! No chão firme, seguindo o ritmo da natureza, sem se preocupar com estes mapas complicados de vôo e manômetros complexos...

É... vida boa... uma questão de perspectiva.