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O Dever
Allan Kardec
O dever é a
obrigação moral da criatura para consigo mesma, primeiro, e, em seguida, para
com os outros. O dever é a lei da vida. Com ele deparamos nas mais ínfimas
particularidades, como nos atos mais elevados. Quero aqui falar apenas do dever
moral e não do dever que as profissões impõem.
Na ordem
dos sentimentos, o dever é muito difícil de cumprir-se, por se achar em
antagonismo com as atrações do interesse e do coração. Não têm testemunhas as
suas vitórias e não estão sujeitas à repressão suas derrotas.
O dever
íntimo do homem fica entregue ao seu livre-arbítrio. O aguilhão da consciência,
guardião da probidade interior, o adverte e sustenta; mas, muitas vezes,
mostra-se impotente diante dos sofismas da paixão.
Fielmente
observado, o dever do coração eleva o homem; como determiná-lo, porém, com
exatidão? Onde começa ele? onde termina? O dever principia, para cada um de vós,
exatamente no ponto em que ameaçais a felicidade ou a tranqüilidade do vosso
próximo; acaba no limite que não desejais ninguém transponha com relação a vós.
Deus criou
todos os homens iguais para a dor. Pequenos ou grandes, ignorantes ou
instruídos, sofrem todos pelas mesmas causas, a fim de que cada um julgue em sã
consciência o mal que pode fazer. Com relação ao bem, infinitamente vário nas
suas expressões, não é o mesmo o critério.
A igualdade
em face da dor é uma sublime providência de Deus, que quer que todos os seus
filhos, instruídos pela experiência comum, não pratiquem o mal, alegando
ignorância de seus efeitos.
O dever é o
resumo prático de todas as especulações morais; é uma bravura da alma que
enfrenta as angústias da luta; é austero e brando; pronto a dobrar-se às mais
diversas complicações, conserva-se inflexível diante das suas tentações.O homem
que cumpre o seu dever ama a Deus mais do que as criaturas e ama as criaturas
mais do que a si mesmo. E a um tempo juiz e escravo em causa própria. |