“Eu” Contra “Eu”

Francisco Cândido Xavier

 

Quando o Homem, ainda jovem, desejou cometer o primeiro desatino, aproximou-se o Bom-Senso e observou-lhe:

- Detém-te! Porque te confias assim ao mal?

O interpelado, porém, respondeu orgulhoso:

- Eu quero.

Passando, mais tarde, à condição de perdulário e adotando a extravagância e a loucura por normas de viver, apareceu a Ponderação e aconselhou-o:

- Para! Porque te consagras, desse modo, ao gasto inconseqüente?

Ele, contudo, esclareceu, jactancioso:

- Eu posso.

Mais tarde, mobilizando os outros, a serviço da própria insensatez, recebeu a visita da Humildade, que lhe rogou piedosa:

- Reflete! Porque não te compadeces dos mais fracos e dos mais ignorantes?

O infeliz, todavia, respondeu, colérico:

- Eu mando.

Absorvendo imensos recursos, inutilmente, quando poderia beneficiar a coletividade, abeirou-se dele o Amor e pediu:

- Modifica-te! Sê caridoso! Como podes reter o rio das oportunidades sem socorrer o campo das necessidades alheias?

E o mísero informou:

- Eu ordeno.

Praticando atos condenáveis que o levaram ao pelourinho da desaprovação pública, a Justiça acercou-se dele e recomendou:

- Não prossigas! Não te dói ferir tanta gente?